Sofrimento mental atinge 1 em cada 3 trabalhadores dos canaviais da região de Campinas, aponta estudo

Sofrimento mental atinge 1 em cada 3 trabalhadores dos canaviais da região de Campinas Um em cada três trabalhadores dos canaviais da Região Metropolitana de...

Sofrimento mental atinge 1 em cada 3 trabalhadores dos canaviais da região de Campinas, aponta estudo
Sofrimento mental atinge 1 em cada 3 trabalhadores dos canaviais da região de Campinas, aponta estudo (Foto: Reprodução)

Sofrimento mental atinge 1 em cada 3 trabalhadores dos canaviais da região de Campinas Um em cada três trabalhadores dos canaviais da Região Metropolitana de Campinas (RMC) apresenta sinais de sofrimento mental. O dado é de uma tese de doutorado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa avaliou 100 profissionais do setor sucroenergético. Sinais de transtornos mentais comuns foram identificados em 33% dos participantes. O termo reúne sintomas como ansiedade, irritabilidade, alterações do sono, dificuldade de concentração e cansaço persistente. O resultado não significa que esses trabalhadores tenham um diagnóstico de transtorno mental. O questionário usado na pesquisa serve para identificar sintomas que podem indicar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada. A pesquisa também mostrou que os trabalhadores que fazem atividades manuais nos canaviais apresentaram os maiores índices de sofrimento mental e fadiga. 🧠 Veja os principais resultados: 33% dos trabalhadores apresentaram sinais de transtornos mentais comuns; entre os profissionais de atividades manuais, o índice chegou a 43,5%, contra 11,8% entre os motoristas; 32,3% dos trabalhadores de atividades manuais apresentaram fadiga elevada, ante 5,9% dos motoristas; entre as mulheres, 50% apresentaram fadiga elevada, contra 18,6% dos homens. Os dados fazem parte da tese da fisioterapeuta e pesquisadora Beatriz Machado de Campos Corrêa Silva. O trabalho foi defendido em fevereiro de 2026 na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Segundo Silva, a pesquisa surgiu de uma lacuna. Durante anos, os estudos se concentraram no desgaste físico provocado pelo corte manual da cana. Com a mecanização, esse tipo de trabalho diminuiu. Mas faltavam pesquisas sobre a saúde de quem continuou no setor. “Até uns anos atrás, houve muitos estudos relacionados à fadiga física desses trabalhadores, em um período em que muitos morriam por exaustão, porque o trabalho físico era realmente muito intenso. Depois veio a mecanização, mas com uma preocupação maior em proteger o meio ambiente, e não olhando para a saúde dos trabalhadores”, analisa. Pesquisa de doutorado avaliou 100 profissionais do setor sucroenergético Beatriz Machado de Campos Corrêa Silva/Arquivo pessoal Como a saúde mental foi avaliada? Para avaliar a saúde mental dos participantes, a pesquisadora usou um questionário com 20 perguntas. O instrumento identifica sintomas relacionados aos chamados transtornos mentais comuns. “Você vai detectar se a pessoa tem humor deprimido, ansiedade, irritabilidade, se tem um cansaço persistente, dificuldade de concentração, alteração do sono, se ela se sente incapaz de realizar as atividades diárias e se tem algumas queixas, como dor de cabeça e dor muscular”, detalha Silva. Os maiores índices de sofrimento mental e fadiga foram encontrados entre os trabalhadores de atividades manuais. Nesse grupo, 43,5% apresentaram sinais de transtornos mentais comuns e 32,3%, fadiga elevada. Entre os motoristas, os índices foram de 11,8% e 5,9%, respectivamente. Na pesquisa, os trabalhadores de atividades manuais são chamados de diaristas. “Os diaristas são muito mais vulneráveis. São eles que fazem esse replantio manual da cana, que passam os herbicidas. Então, é um trabalho mais penoso mesmo”, afirma. A mecanização reduziu o corte manual, mas não eliminou o trabalho braçal. “Tem as áreas em que as máquinas, as colheitadeiras, não passam. Coincidentemente, essas áreas são as mais difíceis, porque a cana fica emaranhada, fica caída. Então, é mais penoso o corte dessa cana”. Riscos como parte da rotina Além dos questionários, Silva acompanhou a rotina nos canaviais e entrevistou trabalhadores. ⚠️ A pesquisadora percebeu que situações consideradas acidentes em outros ambientes são, muitas vezes, vistas pelos trabalhadores como parte normal da rotina no campo. “Uma pessoa que trabalha numa cozinha industrial, se ela se corta com a faca, é um acidente de trabalho. O trabalhador rural canavieiro, se ele se corta com a folha da cana, que é bem cortante, para ele isso não é acidente de trabalho”, destaca. A pesquisadora percebeu algo parecido ao falar sobre saúde mental. “Na hora de conversar com eles, você percebia que muitos nunca tinham parado para pensar em algumas questões. E alguns tiveram, inclusive, dificuldade de responder, porque nunca tinham parado para pensar naquele aspecto”. Mecanização da colheita da cana-de-açúcar mudou a forma como atuam os trabalhadores Murillo Gomes/g1 Calor, herbicidas e falta de estrutura Durante o trabalho de campo, Silva observou problemas na estrutura oferecida aos trabalhadores, como banheiros distantes e áreas precárias para descanso e alimentação. A rotina de quem aplica herbicidas também chamou a atenção. Os profissionais trabalham sob o sol, com equipamentos de proteção, e carregam uma bomba de cerca de 20 quilos nas costas. “Eles recebem máscara, óculos, aquele macacão de proteção. Só que esse macacão é quente, e a pessoa fica trabalhando com uma bomba de 20 quilos nas costas, embaixo do sol, com outra roupa por baixo. Então, imagina quanto essa pessoa transpira”, relata. Nos intervalos, a pesquisadora viu trabalhadores colocarem as roupas de proteção sobre a cana para secar. Também faltavam locais adequados para a higiene antes das refeições. “Na hora que eles vão parar para almoçar, não tem um lavatório adequado para que higienizem a mão para poder comer direito. Eles tiram essa veste de proteção, o EPI, e colocam sobre a cana para secar e vestir de novo”, afirma. Para a autora do estudo, a distância das áreas rurais também dificulta a fiscalização. “São trabalhadores que ficam colocados em lugares muito distantes, de difícil acesso. Fica difícil de supervisionar, fica difícil de fiscalizar”. Metade das mulheres apresentou fadiga elevada 👩 Entre as mulheres avaliadas, 50% apresentaram fadiga elevada, contra 18,6% dos homens. A tese aponta que a diferença pode estar relacionada à soma do trabalho profissional com as responsabilidades fora dele. Já os sinais de transtornos mentais comuns apareceram em 28,6% das mulheres e 33,7% dos homens. Nesse caso, não houve diferença estatisticamente significativa. Diante dos resultados, Silva defende mais fiscalização e uma atuação mais próxima das equipes de saúde ocupacional. Para ela, “não adianta só recebê-los na avaliação da medicina ocupacional e não conhecer a realidade diária”. A pesquisadora também defende horários diferenciados nos serviços de saúde. A medida permitiria que os trabalhadores buscassem atendimento sem perder um dia de trabalho. “Eles não vão deixar de trabalhar, de ganhar — e já ganham pouco — para ir a uma consulta, porque acabam minimizando o próprio sofrimento físico, naturalizando tudo”, destaca. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas